Literatura contemporánea de Portugal / No. 212




o valor em não ter valor

Gosto de pensar na floresta amazónica, nos bosques da Irlanda e em papagaios de bicos coloridos, e gosto de pensar nos fiordes noruegueses e nos géiseres da Islândia, e gosto de pensar nas estepes africanas e na linha curva do corno do carneiro e nos salmões a subir o rio para a desova e na quantidade de água que há no mundo, e gosto de pensar em todas as coca-colas cobertas de pó guardadas em armazéns de pequenas lojas à beira de estradas desertas, e gosto de pensar em sinais de néon de motéis ranhosos, sempre com uma letra fundida, e na banca de uma tabacaria onde estão dispostas as primeiras páginas de jornais de todo o mundo com diferentes alfabetos, e gosto de pensar em todas as crianças que hoje aprenderam a letra éme e a confundem com a letra éne, e perguntam aos pais:

—Quantas perninhas?

Gosto de ser pequena num mundo extravagante e ex tenso. Gosto de saber que existem mil corais diferentes, e mil auto-estradas. Gosto de saber que existem antílo pes que as atravessam, e plantas que rompem o al ca trão, para mim é tudo natureza. Não precisa ser verde para ser natureza. Nem azul. Não precisa de estar fora de mim. Eu já sou tão natureza quanto a natureza pode ser. Tudo me diz respeito.

Se eu não tenho valor, nada tem valor. E o contrário também.




el valor de no tener valor

Me gusta pensar en la selva amazónica, en los bosques de Irlanda y en loros de picos de colores, y me gusta pensar en los fiordos noruegos y en los géiseres de Islandia, y me gusta pensar en las estepas africanas y en la línea curva del cuerno del carnero y en los salmones subiendo el río para desovar y en la cantidad de agua que hay en el mundo, y me gusta pensar en todas las coca-colas cubiertas de polvo guardadas en almace nes de pequeñas tiendas a la orilla de caminos desiertos, y me gusta pensar en los letreros de neón de moteles sórdidos, siempre con una letra fundida, y en un pues to de revistas donde están exhibidas las primeras páginas de periódicos de todo el mundo con diferentes alfabetos, y me gusta pensar en todos los niños que hoy apren dieron la letra eme y la confunden con la letra ene, y le preguntan a sus padres:

—¿Cuántas patitas?

Me gusta ser pequeña en un mundo extravagante y extenso. Me gusta saber que existen mil corales diferentes, y mil carreteras. Me gusta saber que existen antílopes que las atraviesan, y plantas que rompen el asfalto, para mí todo es naturaleza. No tiene que ser verde para ser naturaleza. Ni azul. No tiene que estar fue ra de mí. Yo ya soy tan naturaleza como la naturaleza puede serlo. Todo me habla de ella.

Si yo no tengo valor, nada tiene valor. Y lo contrario también.




agora chamas-te ludwig

—…E és assim muito rico e muito inteligente e sabes tudo sobre as palavras.

—“Lú-d’vigue”? Aonde é que tu vais buscar estes nomes…?

Pablo ri-se, nem o mais banal jogo de “eu agora sou o médico e tu agora és o paciente” se joga de forma habitual com a filha.

—É o primeiro nome do Beethoven, pai.

—Ah, pronto. Desculpe a ignorância.

Candela circunda o pai para lhe poder prender ao pescoço uma espécie de babete gigante, que preparou antecipadamente com guardanapos colados. Existirá uma intenção mimética para este enorme babete, mas não é óbvia. Compenetrada, instrui o pai sobre os objectivos do jogo:

—Então agora chamas-te Ludwig e és assim muito rico.

—Mas, o Beethoven era muito rico…? Não tinha essa.

—Ó pai, tu não és o Beethoven!

—Mas, Candela, ainda agora disseste…

—Pai, ouve: o teu nome é Ludwig e és muito rico.

—OK. Pode ser. Posso viver com isso.

—E estás muito triste…

—Oh, isso não…

—Estás muito triste.

—Estou muito triste. Por que é que estou muito triste?

—Porque não sabes qual é o teu valor. Não sabes o que vales.

—Porquê?

—Porquê o quê, pai?

—Por que é que não sei o que valho? Por que é que isso me deixa triste? Não podemos fazer nada que me anime?

—Não. Não funciona assim. Eu disse que tu estás muito triste e então tu estás muito triste. As palavras é que mandam, pai.




ahora te llamas ludwig


—…Y ahora eres muy rico y muy inteligente y sabes todo sobre las palabras.

—¿“Lú-dvig”? ¿De dónde sacas esos nombres…?

Pablo se ríe, ni siquiera el más simple juego de “ahora yo soy el doctor y tú eres el paciente” se juega de forma tradicional con su hija.

—Es el primer nombre de Beethoven, papá.

—Ah, muy bien. Disculpa mi ignorancia.

Candela rodea a su padre para poder ponerle al cuello una especie de babero gigante, que preparó desde antes con servilletas unidas. Debe existir una intención mimética para este enorme babero, pero no es obvia. Compenetrada, instruye a su padre sobre los objetivos del juego:

—Entonces ahora te llamas Ludwig y eres muy rico.

—Pero, ¿Beethoven era muy rico…? No sabía eso.

—¡Ay, papá, tú no eres Beethoven!

—Pero, Candela, eso me acabas de decir…

—Papá, escucha: te llamas Ludwig y eres muy rico.

—Bueno. Está bien. Puedo vivir con eso.

—Y estás muy triste…

—Oh, eso no…

—Estás muy triste.

—Estoy muy triste. ¿Por qué estoy muy triste?

—Porque no sabes cuál es tu valor. No sabes lo que vales.

—¿Por qué?

—¿Por qué qué, papá?

—¿Por qué no sé lo que valgo? ¿Por qué eso me pone triste? ¿No podemos hacer algo que me ponga feliz?

—No. No funciona así. Dije que estás muy triste, así que estás muy triste. Las palabras son las que mandan, papá.




queimar uma língua

Uma pequena aldeia de uma tribo aborígene é dizimada pela seca e abandonada pelos mais jovens em debandada para a grande cidade. Ficam cinco anciãos a guardar as tradições e as palavras. No espaço de um ano, três deles morrem. Sobram as duas mulheres: as últimas guardiãs daquele tesouro. Mas elas zangaramse há uns tempos a propósito da poda do abacateiro

—e agora não se falam.


quemar una lengua

Una pequeña aldea de una tribu aborigen se ve diezmada por la sequía y es abandonada en desbandada por los más jóvenes rumbo a la gran ciudad. Quedan cinco ancianos cuidando las tradiciones y las palabras. En el transcurso de un año, tres de ellos mueren. Quedan dos mujeres: las últimas guardianas de ese tesoro. Pero están enojadas desde hace tiempo debido a la poda de un árbol de aguacate (y ya no se hablan).



fortunas idiomáticas ancestrais


A avó Keiko tinha-se esgotado no papel e a caneta não mostrava sinais de abrandar. Li muito, cuidei da terra, tratei da comida, fui testemunha diária da paleta do prin cípio ao fim do dia, no céu, no lago, sobre a copa das árvores mais altas. Já não pensava na Carolina, nem na guerra, e finalmente abri mão da ideia de que a vida é uma ferramenta. Que é suposto fazermos alguma coisa com ela. Que serve para algo! Decidi que não ia fazer nada com a minha vida além de a ir vivendo, e isso trouxe-me imensa paz.

Não sei descrever o que ia surgindo nos cadernos. Era parecido com a maioria das pessoas: frases soltas e fragmentos reunidos por uma lombada. Não sabia unir aquelas peças num todo que se assemelhasse a um texto. Aqui sim, pensei na Carolina. Desejei que ela aparecesse ao final de uma tarde e pudéssemos ter uma conversa sobre como se escreve, como se começa, como se acaba, como é que se sabe quando largar, e por que é que há coisas que soam tão bem quando pensadas, e na página se tornam tão frágeis?

Parecia-me tudo muito frágil.

Caneta e papel. Nunca digitalizei nada. A loucura da Darla Walsh não conhecia fim, e eu não queria os meus devaneios no Sistema.

Escrevi finalmente a resposta que outrora não consegui dar àquela rapariga, a adolescente que me agarrou pela mão e me perguntou num inglês perfeito se eu a ajudava a sair dali. Escrevi-lhe uma longa carta. Escrevi missivas aos dois lados da guerra, algumas cartas de amor. O vocabulário sobrepunha-se, coisas que servem tanto para amar quanto para combater: conquistarseduzircapturar. Estive afinal re fém de um grande amor.

“A minha fotografia nasceu de um silêncio e vai extinguir-se noutro”, foi a citação na contracapa do primeiro de alguns livros. Ao lançá-lo, pensei nela. Não sabia do seu paradeiro, que vida levava, mas pensei nela e desejei que visse o livro onde quer que estivesse. Que-ria dizer-lhe que esteve sempre errada.

Passadas décadas da sua sentença de morte sobre os livros, o mundo continuava a precisar deles.

Quem somos nós para saber do que o mundo precisa? Eu sentava-me e escrevia. Apareceu na ponta da caneta um outro rosto de mulher.

Vi-a atravessar uma linha de fogo para chegar ao outro lado da rua, ao que podia ter sido a sua casa, agora um escombro. Vi-a abrir a porta e entrar, apesar de ha ver buracos nas paredes muito maiores do que a porta fechada. Ela entrou pela porta de uma casa sem paredes.

Segui-a e vi-a escolher entre os destroços do que poderia ter sido o seu quarto um pedaço rachado de espelho. Vi-a erguer o espelho ao nível do rosto e contemplar-se. Solene. Com uma lente de longo alcance fotografei o rosto reflectido. Taciturno, de feições bem inscritas. Já não era jovem, mas trazia a beleza das experiências acumuladas. Vi-a passar os dedos pela face, humedecer o dedo com saliva e aperfeiçoar a forma das sobrancelhas, acentuando o bonito arco que lhe ampliava a força dos olhos negros.

Levei comigo apenas três fotografias. Nunca tirei gran de sentido daquele encontro, o impacto que teve em mim, nem percebi que ritual foi o dela. Como é que alguém volta à sua casa em escombros, ao que foi um dia o seu quarto. Para quê? E como é que se segue caminho com tanta ruína ao peito.

Ficou para sempre como uma das mais altas instâncias de beleza feminina; com as rugas, o pesar, a idade avançada. Talvez por conter tanta contradição.

Quando me sentei a escrever, encontrei outro final. Com as palavras, avancei sobre os escombros e inter-pelei-a. Aquela mesma pergunta:

—Como se avança com tanta ruína ao peito?




fortunas idiomáticas ancestrales


La abuela Keiko se había agotado en el papel y la pluma ya no mostraba señales de ablandarse. Leí mucho, cuidé la tierra, me encargué de la comida, fui testigo dia rio de la paleta del principio al fin del día, en el cielo, en el lago, sobre la copa de los árboles más altos. Ya no pensaba en Carolina, ni en la guerra, y finalmente desis tí de la idea de que la vida es una herramienta. Que se supone que debemos hacer algo con ella. ¡Que sirve para algo! Decidí que no haría nada con mi vida además de irla viviendo, y eso me trajo mucha paz.

No sé describir lo que iba surgiendo en los cuadernos. Era parecido a la mayoría de las personas: frases sueltas y fragmentos unidos por un lomo. No sabía juntar esas partes en un todo que se asemejara a un texto. Entonces, pensé en Carolina. De seé que apareciera al final de una tarde y que pudiéramos tener una plática sobre cómo se escribe, cómo se comienza, cómo se acaba, cómo se sabe cuándo dejarlo, y por qué hay cosas que suenan tan bien cuando se piensan, pero que en la página se vuelven tan frágiles.

Todo me parecía muy frágil.

Pluma y papel. Nunca digitalicé nada. La locura de Darla Walsh no tenía fin, y yo no quería mis devaneos en el Sistema.

Escribí finalmente la respuesta que antes no había podido dar a aquella muchacha, la adolescente que me tomó de la mano y me preguntó en un inglés perfecto si la podía ayudar a salir de ahí. Le escribí una larga carta. Escribí cartas a los dos lados de la guerra, algunas cartas de amor. El vocabulario se sobreponía, cosas que sirven tanto para amar como para combatir: conquistarseducircapturar. A fin de cuentas, fui rehén de un gran amor.

“Mi fotografía nació de un silencio y se extinguirá en otro”, fue la cita en la contraportada del primero de algunos libros. Al publicarlo, pensé en ella. No sabía su paradero, qué vida llevaba, pero pensé en ella y deseé que viera el libro, donde sea que estuviera. Quería decirle que siempre estuvo equivocada.

Décadas después de su sentencia acerca de la muerte de los libros, el mundo seguía necesitándolos.

¿Quiénes somos nosotros para saber qué es lo que el mundo necesita? Me sentaba y escribía. Apareció en la punta de la pluma otro rostro de mujer.

La vi atravesar una línea de fuego para llegar al otro lado de la calle, a lo que podría haber sido su casa, ahora en ruinas. La vi abrir la puerta y entrar, a pesar de que había agujeros en las paredes mucho más grandes que la puerta cerrada. Entró por la puerta de una casa sin paredes.

La seguí y la vi escoger entre los escombros de lo que podría haber sido su cuar to un pedazo roto de espejo. La vi levantar el espejo a la altura del rostro y contemplar se. Solemne. Con un lente de largo alcance fotografié el rostro reflejado. Taciturno, de facciones bien inscritas. Ya no era joven, pero tenía la belleza de las experiencias acumuladas. La vi pasar los dedos por el rostro, humedecer el dedo con saliva y arre glarse las cejas, acentuando el bello arco que aumentaba la fuerza de sus ojos.

Me llevé sólo tres fotografías. Nunca le vi gran sentido a aquel encuentro, al impacto que tuvo en mí, ni entendí el ritual de ella. Cómo es que alguien vuelve a su casa en ruinas, a lo que un día fue su cuarto. ¿Para qué? Y cómo es que se puede continuar con tantas ruinas en el pecho.

Permaneció como uno de los más altos parámetros de belleza femenina; con las arrugas, el pesar, la edad avanzada. Tal vez por contener tantas contradicciones.

Cuando me senté a escribir, encontré otro final. Con las palabras, avancé sobre los escombros y la interpelé. La misma pregunta:

—¿Cómo se avanza con tantas ruinas en el pecho?




uma utopia individual


No Vale do Silêncio vive uma Indígena do povo Okanagan. Atravessou a extensão do núcleo corporativo outrora conhecido por “Canadá” para vir viver no Vale do Silêncio. Ela diz:

—Na língua que falavam os Okanagan, a expressão usada para designar “o nosso corpo” continha a palavra para “terra”. O nosso corpo e terra: eram a mesma ideia. Quando me descrevo a alguém com uma expressão que não me distingue do que nos rodeia, isso muda radicalmente a natureza do nosso encontro. E com tudo o resto.




una utopía individual

En el Valle del Silencio vive una indígena del pueblo Okanagan. Atravesó la extensión del núcleo corporativo antes conocido como “Canadá” para venir a vivir en el Valle del Silencio. Ella dijo:

—En la lengua que hablaban los Okanagan, la ex-presión usada para designar “nuestro cuerpo” contenía la palabra para “tierra”. Nuestro cuerpo y tierra: eran la misma idea. Cuando me describo a alguien con una expresión que no me distingue de lo que nos rodea, eso cambia radicalmente la naturaleza de nuestro encuentro. Y de todo lo demás.



ideia ainda mais obtusa

No Vale do Silêncio vivem três Silenciários, Jonas, Paulo e Anastácio. O termo “silenciário” foi recuperado do latim silentiarius, que era o título dado na corte imperial bizantina a uma classe de cortesãos responsáveis pelo silêncio no Grande Palácio de Constantinopla.

Nenhum deles falava muito, mas quando Jonas, o mais velho dos três, dizia:

—Temos de fazer do silêncio aquilo que somos.

Paulo contestava:

—Ou então fazemos silêncio daquilo que somos.

E Anastácio concluía:

—Somos o silêncio do que fazemos.

Depois não diziam nada durante dias e dias.




idea aún más obtusa

En el Valle del Silencio viven tres silenciarios: Jonás, Paulo y Anastasio. El término “silenciario” fue tomado del latín silentiarius, que era el título dado en la corte imperial bizantina a un tipo de cortesanos encargados del silencio en el Gran Palacio de Constantinopla.

Ninguno de ellos hablaba mucho, pero cuando Jonás, el más viejo de los tres, de cía:

—Tenemos que hacer del silencio eso que somos.

Paulo contestaba:

—O entonces hagamos silencio de eso que somos.

Y Anastasio concluía:

—Somos el silencio de lo que hacemos.

Después no decían nada más durante días y días.
 



o homem que não parava de mogotrecionar

O homem que mogotreciona sai à rua. Tem estado a mogotrecionar há alguns dias, com cada vez mais infrequentes tréguas. Esta noite mal dormiu. Cansado de tan-to mogotrecionamento, decide-se pela farmácia.

—Desculpe, senhor, mas não temos nada para a mogotrecionação. Não tem outra forma de descrever o que sente?

—Receio bem que não. São sintomas muito específicos.

—Nesse caso, lamento imenso não poder ajudá-lo.

—Como é possível que não tenham nada que abrande esta mogotrecionação aguda? Constante!

—Como quer que curemos algo que nem sequer entendemos o que seja, que ór gãos ataca, como se apanha…

—E todos esses comprimidos para a depressão?

—É diferente. “Depressão” é um termo genérico, banal, onde cabem imensas pa tologias diferentes com causas distintas. Para algumas, temos fármacos.

—É isso. Não pode dar-me disso?

—Mas o senhor tem uma depressão?

—Não. Nesse âmbito sinto-me excepcionalmente bem. Só que estou há vários dias a mogotrecionar.

—Então, já vê.

—Não me vai ajudar?

—Uma “trombeta” não é uma “rã”, um “tijolo” não é um “helicóptero”, e uma “mogotrecionação” não é qualquer outra coisa!

—E o que é que faço?

—Tente cá voltar com uma doença que já exista.

O homem que mogotrecionava sai da farmácia cabisbaixo. Ainda mogotreciona durante vários meses. Visita médicos, curandeiros e alinhadores de chacras em todo o mundo, todos incapazes de o ajudar. E depois morre.




el hombre que no paraba de mogotreccionar

El hombre que mogotrecciona sale a la calle. Ha estado mogotreccionando hace algunos días, cada vez con menos treguas. Esta noche apenas durmió. Cansado de tanto mogotreccionamiento, decidió ir a la farmacia:

—Disculpe, señor, pero no tenemos nada para la mo gotrección. ¿No hay otra forma de describir lo que siente?

—Me temo que no. Son síntomas muy específicos.

—En ese caso, lamento mucho no poder ayudarlo.

—¿Cómo es posible que no tengan nada que calme esta mogotrección aguda? ¡Constante!

—¿Cómo quiere que lo curemos de algo que ni siquiera entendemos qué es, qué órganos ataca, cómo se contagia…?

—¿Y todas esas pastillas para la depresión?

—Es diferente. “Depresión” es un término genérico, banal, donde caben un mon tón de patologías diferentes con causas distintas. Para algunas, tenemos medicamentos.

—Es eso. ¿No me puede dar de eso?

—¿Pero usted tiene depresión?

—No. En ese sentido estoy excepcionalmente bien. Pero hace varios días que estoy mogotreccionando.

—¿Ya ve?

—¿No me va a ayudar?

—¡Una “trompeta” no es una “rana”, un “ladrillo” no es un “helicóptero”, y una “mogotrección” no es cualquier otra cosa!

—¿Y qué hago entonces?

—Vuelva cuando tenga una enfermedad que ya exista.

El hombre que mogotreccionaba sale de la farmacia cabizbajo. Continúa mogotreccionando durante varios meses. Visita médicos, curanderos y alineado res de chacras en todo el mundo, todos incapaces de ayudarlo. Y después muere


Fragmentos de Ecologia, Edição Caminho, 2018



Joana Bértholo (Lisboa, 1982). Licenciada en Diseño de Comunicación por la Facultad de Bellas Artes de Lisboa y doctora en Estudios Culturales por la European University Viadrina de Alemania. En 2005 fue finalista del Premio Jóvenes Creadores. En 2009, su primera novela Diálogos para o fim do mundoobtuvo el Premio “Maria Amália Vaz de Carvalho” y fue publicada en la editorial Caminho, donde también ha publicado las novelas O lago avesso (2013) y Ecologia (2018), los libros de cuentos Inventário do Pó (2015) y Havia (2012), así como el libro infantil y juvenil O museu do pensamento (2017, Premio del Festival Literario de Fátima; nominado por la Sociedad Portuguesa de Autores para el Premio SPA). También escribe para danza y teatro, y da clases. Su obra de teatro Quarto minguante se estrena en el Teatro Nacional D. Maria II en noviembre de 2018, con dirección de Álvaro Correia. Sitio web: <www.unscratchable.info>.